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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sobre olhar e ser olhado


“- Que saco! Não suporto que fiquem me olhando!”,
pude ler bem clarinho nos lábios do guri que esperava o ônibus na mesma parada que eu.
E “Droga”, pensei comigo, “aconteceu de novo”. Nessa hora, juro que imaginei o rapaz vindo até mim e soltando um “Que tá olhando, meu?”, porque isso já aconteceu algumas vezes comigo.

Acho que se isso me acontecesse naquele dia, dessa vez eu criaria uma desculpa na hora e diria algo como “Não, cara, é impressão tua, eu quis ver se era o meu ônibus que vinha vindo. Desculpa aí se pareceu que te olhei”, pra conseguir escapar do afronte.

Mas a verdade é que eu o estava olhando mesmo, e na real nem sei por quê. Aliás, não sei nem se há um por que nisso. Imagine pedir a uma pessoa distraída para argumentar sobre o porquê de ela estar olhando uma árvore... ou uma nuvem... ou uma parede... ou um sapato pendurado na fiação elétrica... ou um pedaço de tomada quebrada no meio da calçada ou... ou uma criança brincando... ou qualquer outra coisa que simplesmente a pessoa estivesse olhando por olhar naquele exato momento. É assim que eu me sinto quando alguém me pergunta por que eu estou olhando alguém. E eu não sei responder, e, quando não sei, eu automaticamente invento respostas, porque minha mente não suporta lacunas.

Será que quando a gente olha e a pessoa olhou que a gente estava olhando, o mais certo é pedir desculpas por olhar? Será que o mais correto e o mais socialmente aceitável é evitar olhar as pessoas, e, em vez disso, olhar o chão, as nuvens, os bichos, os grafites enfeitando os muros, o celular, afinal, tanta coisa pra olhar não é mesmo... para quê olhar logo as pessoas? Ou será que olhar é natural sim, mas esse hábito anda tão reprimido em nós que a gente se sente ofendido quando percebe que está sendo olhado por alguém?

Nessa ocasião em que de repente me peguei olhando alguém que esperava um ônibus, imaginei como seria se eu fosse sincero com o rapaz e dissesse “Não sei, na verdade me deu vontade de te olhar e te olhei”. Mas acho que essa resposta o irritaria bastante, porque sabe-se lá como ele interpretaria a minha frase.
Mas o que será realmente que esses guris, gurias, senhoras, senhores - as crianças e os bichos não – sentem ou pensam quando eu os olho? Será que sentem como se eu estivesse olhando-os com enfrentamento ou será que simplesmente são tímidos e preferem que não sejam percebidos no cotidiano e por isso se irritam tanto? Será que projetam em mim coisas deles mesmos? Não sei, mas eu queria saber. Juro que queria.

Isso me faz lembrar do famoso “Efeito Kuleshov”, utilizado no cinema, onde o ator mantém sua expressão facial neutra enquanto dá o texto, porque isso faz com que o espectador projete suas emoções no olhar do ator. Logo, o espectador se percebe fascinado pela interpretação do ator, mas na verdade está vendo a si mesmo, como se o ator virasse um espelho.

O que tu realmente sentes quando estás simplesmente sendo olhado por alguém que não te conhece? Sentes que o outro está o afrontando, analisando, flertando, menosprezando, indiferenciando ou só que está olhado?

Quando criança, quando eu olhava alguém geralmente a pessoa sorria pra mim. Isso era legal. Tanto, que às vezes eu já olhava sabendo que ia ver a pessoa abrir um. Mas por que será que as reações das pessoas ao meu olhar foram mudando tanto conforme eu fui crescendo e olhando? Qual é a real diferença entre olhar alguém quando se é criança e olhar alguém quando se já é grande?

Acho que sei responder: hoje, não criança, sinto como se existisse uma regra implícita no “olhar”, como se estivesse sido inventada uma espécie de Estatuto de Convivência onde que diz que não se deve olhar por mais de um segundo para alguém que não se conhece; que se deve olhar com cautela; que em vez de olhar pessoas se deve procurar mais olhar o chão, o celular, o muro, o sinal do semáforo, os carros passando, as árvores. E eu nem tentei fazer parar quando eu fui sentindo que essas regras estavam sendo criadas, afinal eu estava crescendo, e sabia que existia uma seriedade e uma tensão muito estranha entre os adultos desde muito cedo, uma seriedade desnecessária e sem explicação, muito expressa pela falta de contato e pela falta de olhar.

O lado bom é que as árvores, por exemplo, até onde se sabe não se importam quando são olhadas. Na verdade não gostam nem desgostam, permanecem neutras com relação a isso.
A verdade é que talvez ninguém queira mais ser olhado.
Eu. Olhando para dentro.