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domingo, 4 de maio de 2014

Ações e alguns desdobramentos poéticos durante a oficina "O Corpo Performático"


No último sábado (03/05) em Porto Alegre, participei de uma das etapas da oficina "O Corpo Performático" com o Me. em Artes Cênicas João Lima. O encontro, que aconteceu na Sala Cecy Frank da Casa de Cultura Mário Quintana, reuniu uma média de vinte pessoas com um desejo em comum: compreender e experimentar a performance e os estados que essa é capaz de acessar no corpo do artista.

Causar estranhamento; a si; ao outro. Realizar ações extra cotidianas. Desviar da mesmice de si mesmo. Desviar da mesmice e do automatismo sem sabor do cotidiano. Causar incômodo; a si, ao outro. Saltar para fora da zona de conforto. Processo autoral.

Executei ações simples. Percebi os significados poéticos que, a partir dessas ações, em mim se desdobraram.

Um dos exercícios que mais me marcou foi o da agulha, no qual aliamos imaginação à ação. Imaginei que minha mão direita segurava uma agulha já com linha branca posta. Sutilmente, comecei a costurar minha mão esquerda, numa ação simples. Enfiei a agulha na mão, puxei a ponta da agulha pelo outro lado da mão e tornava a repetir. Passei a costurar ainda mais sutilmente, depois com um pouco mais de amplitude, com muito mais amplitude, e cada vez mais, até romper numa explosão onde o corpo inteiro envolveu-se na ação de costurar uma única parte do meu corpo. Tinha música de piano de fundo.

Costurar a mão, o peito, o joelho, os pés, costurar uma parte do corpo noutra; costurar-se no outro; costurar o outro em si; ao costurar, a agulha que puxa a linha puxa a parte do corpo junto.

Ao costurar o peito, memórias da infância. A vergonha de uma criança por ter vontade de costurar. Tensão pré-explosiva. Olhar repreensivo do pai, da mãe, da vó e da tia.

Eu comentei isto com o grupo no final: o simples fato do João propor ações pra serem executadas trazem uma poesia interior quando a gente está aberto pra isso. No meu caso, essas tarefas foram capazes de me conduzir à pesca de memórias, ativadas pela ação, e relacionadas intimamente com minhas experiências pessoais. Virou ideia e possibilidade para criação cênica do projeto Quando Envelhecemos.
Mapa do trajeto pela sala.
Fósforo de apresentação.
Insistência no mantimento da triangulação ator - obra - espectador, durante a execução das ações performáticas.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sobre olhar e ser olhado


“- Que saco! Não suporto que fiquem me olhando!”,
pude ler bem clarinho nos lábios do guri que esperava o ônibus na mesma parada que eu.
E “Droga”, pensei comigo, “aconteceu de novo”. Nessa hora, juro que imaginei o rapaz vindo até mim e soltando um “Que tá olhando, meu?”, porque isso já aconteceu algumas vezes comigo.

Acho que se isso me acontecesse naquele dia, dessa vez eu criaria uma desculpa na hora e diria algo como “Não, cara, é impressão tua, eu quis ver se era o meu ônibus que vinha vindo. Desculpa aí se pareceu que te olhei”, pra conseguir escapar do afronte.

Mas a verdade é que eu o estava olhando mesmo, e na real nem sei por quê. Aliás, não sei nem se há um por que nisso. Imagine pedir a uma pessoa distraída para argumentar sobre o porquê de ela estar olhando uma árvore... ou uma nuvem... ou uma parede... ou um sapato pendurado na fiação elétrica... ou um pedaço de tomada quebrada no meio da calçada ou... ou uma criança brincando... ou qualquer outra coisa que simplesmente a pessoa estivesse olhando por olhar naquele exato momento. É assim que eu me sinto quando alguém me pergunta por que eu estou olhando alguém. E eu não sei responder, e, quando não sei, eu automaticamente invento respostas, porque minha mente não suporta lacunas.

Será que quando a gente olha e a pessoa olhou que a gente estava olhando, o mais certo é pedir desculpas por olhar? Será que o mais correto e o mais socialmente aceitável é evitar olhar as pessoas, e, em vez disso, olhar o chão, as nuvens, os bichos, os grafites enfeitando os muros, o celular, afinal, tanta coisa pra olhar não é mesmo... para quê olhar logo as pessoas? Ou será que olhar é natural sim, mas esse hábito anda tão reprimido em nós que a gente se sente ofendido quando percebe que está sendo olhado por alguém?

Nessa ocasião em que de repente me peguei olhando alguém que esperava um ônibus, imaginei como seria se eu fosse sincero com o rapaz e dissesse “Não sei, na verdade me deu vontade de te olhar e te olhei”. Mas acho que essa resposta o irritaria bastante, porque sabe-se lá como ele interpretaria a minha frase.
Mas o que será realmente que esses guris, gurias, senhoras, senhores - as crianças e os bichos não – sentem ou pensam quando eu os olho? Será que sentem como se eu estivesse olhando-os com enfrentamento ou será que simplesmente são tímidos e preferem que não sejam percebidos no cotidiano e por isso se irritam tanto? Será que projetam em mim coisas deles mesmos? Não sei, mas eu queria saber. Juro que queria.

Isso me faz lembrar do famoso “Efeito Kuleshov”, utilizado no cinema, onde o ator mantém sua expressão facial neutra enquanto dá o texto, porque isso faz com que o espectador projete suas emoções no olhar do ator. Logo, o espectador se percebe fascinado pela interpretação do ator, mas na verdade está vendo a si mesmo, como se o ator virasse um espelho.

O que tu realmente sentes quando estás simplesmente sendo olhado por alguém que não te conhece? Sentes que o outro está o afrontando, analisando, flertando, menosprezando, indiferenciando ou só que está olhado?

Quando criança, quando eu olhava alguém geralmente a pessoa sorria pra mim. Isso era legal. Tanto, que às vezes eu já olhava sabendo que ia ver a pessoa abrir um. Mas por que será que as reações das pessoas ao meu olhar foram mudando tanto conforme eu fui crescendo e olhando? Qual é a real diferença entre olhar alguém quando se é criança e olhar alguém quando se já é grande?

Acho que sei responder: hoje, não criança, sinto como se existisse uma regra implícita no “olhar”, como se estivesse sido inventada uma espécie de Estatuto de Convivência onde que diz que não se deve olhar por mais de um segundo para alguém que não se conhece; que se deve olhar com cautela; que em vez de olhar pessoas se deve procurar mais olhar o chão, o celular, o muro, o sinal do semáforo, os carros passando, as árvores. E eu nem tentei fazer parar quando eu fui sentindo que essas regras estavam sendo criadas, afinal eu estava crescendo, e sabia que existia uma seriedade e uma tensão muito estranha entre os adultos desde muito cedo, uma seriedade desnecessária e sem explicação, muito expressa pela falta de contato e pela falta de olhar.

O lado bom é que as árvores, por exemplo, até onde se sabe não se importam quando são olhadas. Na verdade não gostam nem desgostam, permanecem neutras com relação a isso.
A verdade é que talvez ninguém queira mais ser olhado.
Eu. Olhando para dentro.
                                                      

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sobre a performance Voz e Matéria

Performance Voz e Matéria (2013) - Tatiana Duarte e eu na Casa da Alice.

"Palavras que merecem naturalmente seguir o fluxo da expressão, mas que, por alguma circunstância desconhecida, acham um jeito de se esconder."

Naquela tarde eu e a Tatiana já sabíamos, em parte, os exercícios que iríamos nos submeter no palco do Teatro do COP, pois, uma semana antes, na minha casa, conversamos e os definimos: falar por 30 minutos seria um dos jogos principais. E assim foi, iniciamos caminhando pelo espaço de jogo, nos percebendo e percebendo o espaço como um todo, sentindo as tábuas nos pés e os pés nas tábuas, os diferentes sons que os pés pisando nas tábuas causavam, os rasantes baixos que os morcegos davam em nós e, o mais importante, nos mantemos olhando nos olhos um do outro, durante todos os instantes em que isso fosse possível.

Ativamos o despertador para soar quando dessem 30 minutos e começamos com aquela tarefa aparentemente simples e cotidiana para muitas pessoas: falar! Os assuntos aconteceram aleatórios, pelo menos pra mim, porque a preocupação maior (já que era regra do nosso jogo) se mantinha em falar sem parar, "o quê", não importava. Eu não fazia ideia do que a Tati falava porque minha concentração estava em ter o que dizer. Por vezes, o meu assunto parecia que estava acabando, e, não sabendo sobre o que eu falaria depois, usei exatamente isso como fala, o que desencadeou mais e mais assunto, assim, espontaneamente.

Em certo momento, já estávamos tão habituados àquela experiência que conseguimos um entrar no assunto do outro. Podíamos com eficácia compreender um o que o outro dizia sem que, para isso, precisássemos nos silenciar. A Tati sem interromper o jogo me convidou para dar a volta na quadra e o fizemos: além de dialogar entre nós, observamos o estranhamento óbvio das pessoas que cruzavam por nós e comentamos isso verbalmente. Falei tanta coisa, até coisas que, em momentos da minha vida, queria ter falado, julguei muitíssimo importante ter dito e, por conta de alguma coisa - talvez até timidez - não falei.

Este processo também me faz questionar isso: quantas coisas essenciais, em vez de dizer, as pessoas não "engolem" por recear as reações do ouvinte. Penso nas expressões artísticas (principalmente música, pintura e teatro) que já falaram tantas coisas por mim e como isso me deixou mais aliviado, de certa forma. Ou quando eu dirigi Fim de Partida, de Beckett, em Encenação I, o quanto os atores expressaram bem o modo como eu, às vezes, sinto a vida.

Eu torço pra que esse processo de criação cênica ao qual eu e a Tati estamos nos inserindo agora, ao chegar no seu produto final, possa não apenas falar por mim e por ela, mas principalmente por todos aqueles que, alguma vez na vida, já passaram por isso. E assim, como toda pesquisa teatral, por intermédio de nossa sincera entrega vem se constituindo um novo material de trabalho, cada vez mais consistente e a cada encontro mais fluidamente. Poderá gerar um ato performático (se é que o próprio exercício já não foi) ou uma cena, ou cenas em que a performance, na sua essência e característica, esteja presente.

Links de durante e após a criação de Voz e Matéria (2013):
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2013/03/voz-e-materia.html
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2012/12/performando-como-processo-de-cura.html
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2013/03/casa-da-alice-ii-e-nos-performando.html

A seguir, a videoperformance da performance, com imagens e edição de Thiago Rodeghiero.
Parcerias: Presença Híbrida, Olhar do Outro, Boca de Cena, Epílogo Filmes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Performance "Trepliov.me"

Texto de Tatiana Duarte

Abaixo há a demonstração da Performance”Trepliov.me”, do artista Lumilan Noda, na escola Assis Brasil, pela disciplina de Estagio II, do curso de Licenciatura em Teatro- UFPEL.

A discente Tatiana Duarte está ministrando estágio na escola Assis Brasil, com abordagem em "Performance como relação humana no meio escolar". Com isso, convidou o colega Lumilan para mostrar aos seus alunos uma performance, envolvendo sua pesquisa de ator, a qual está em andamento e é de conclusão de curso.

Através da demonstração prática em sala de aula, os alunos tiveram como observar o ato performático do ator, e, logo após o termino, fazer perguntas. Os alunos fizeram perguntas muito interessantes e mostraram-se curiosos sobre o processo de trabalho dele e sobre como o ator se mantém no mercado de trabalho.

O vídeo abaixo foi feito durante o aquecimento do ator-performer, que vem pesquisando o mimo corporal em sua construção para a cena, a partir do personagem Trepliov do espetáculo "Olhar do Outro", inspirado em A Gaivota.

Minutos antes da demonstração, ele aqueceu, deixando fluir as qualidades do mimo. Seu corpo ativado com os segmentos da metodologia se colocou de maneira fixa e maleável para sua partitura física. No vídeo observa-se que há um ponto entre um movimento e outro, e isso se dá na preparação do ator com um treinamento anterior ao trabalho, o que observo que tenha ficado como memória corporal em seus movimentos.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Manifesto da Mímica Total


A arte não cria mentiras. As representações e as criações de máscaras acontecem freqüentemente no nosso cotidiano. A arte é o espaço-tempo onde se cria realidade e quebram-se as representações. Ela afirma a vida em sua plenitude, os sentimentos, as alegrias, as dores, o ridículo do ser humano, revelando o que se passa despercebido no dia a dia.

A arte não mostra, ela revela. Ela não é um espelho da sociedade, mas a própria realidade.

A arte de corporificar idéias, emoções, sentimentos, de atualizar e presentificar o virtual em realidade física e vocal, a arte do ser, do estar presente, esta é a Mímica. Por ser uma arte que trata diretamente do movimento da vida, da ação, ela existe desde os primórdios da humanidade e já era encontrada nos ritos primitivos. Ela teve diferentes fases em seu desenvolvimento, passando por vários gêneros e estéticas que vão do trágico ao cômico. Na Mímica Clássica o gênero da pantomima foi o mais conhecido. Na Moderna, foram a Mímica Corporal Dramática e a Mímica Subjetiva. A Mímica Contemporânea é mais conhecida pelo nome de Teatro Físico que tenta se dissociar da idéia de arte silenciosa (pantomima) e enfatizar também a mímica vocal, isto é, a corporificação dos sons do pensamento, da respiração e da Natureza.

O Mímico fala, canta, grita. A mímica dos ritos primitivos já incorporava gestos e sons. Na Antiguidade os mímicos gregos e romanos utilizavam falas e textos escritos em suas encenações. É no gênero da pantomima que não há falas, onde a narrativa gestual acontece no silêncio.

Por presentificar a vida, a mímica é encontrada nas mais diversas áreas. Existe a mímica do artista plástico, do bailarino, do ator tradicional, da vida cotidiana. De fato, onde há vida há mímica. Pintores e escultores são mímicos fantásticos. Como dizia Lecoq, “A habilidade de Picasso de desenhar um touro dependeu dele ter achado a essência do touro nele mesmo, que liberou as formas dos gestos em sua mão. Ele fazia mímica. O ato da mímica é literalmente o de corporificar e, portanto, compreender melhor”. O bailarino ao corporificar uma sensação na ação dançada está fazendo mímica, assim como o ator de teatro tradicional que ao corporificar o subtexto e os monólogos interiores do personagem na ação física e vocal, pratica a mímica. Os nossos gestos cotidianos e expressões são frutos do ato de corporificação, ou seja, da mímica. A mímica é uma maneira de descobrir e redescobrir a vida com um frescor renovado. Quando alguém nos pede para fazer a mímica de alguma ação que já se tornou automática em nosso dia a dia, precisamos nos sensibilizar novamente a todos os detalhes para poder realizá-la. A ação da mímica se torna um ato de conhecimento.

A Mímica Total enxerga a mímica como um ato total, que afirma a potência da vida no pensamento, corpo e voz integrados na figura do ator-performer. É a sua totalidade que me interessa e não a visão específica ou purista encontrada nos modernistas e nem num gênero de estilo, e sim no todo desta arte que torna visível o invisível. Não me interessa os gêneros mas a arte. A Mímica Total recebe de braços abertos a Mímica Antiga, Clássica, Moderna e Contemporânea em sua totalidade e não em uma visão reducionista e limitante de partes isoladas. Com isso os vários gêneros são incorporados e bem-vindos, o tanto que não se desconectem do mais importante que é a afirmação da vida. É necessário esclarecer que o todo a que me refiro não é a soma das partes, pois por mais que somemos as várias partes de um sistema algo se perde nesse cálculo. O ato total é artístico, científico e filosófico ao mesmo tempo.

A Mímica Total é um rompimento radical com a forma de pensar o corpo como uma máquina compartimentada, dividida em mente, cérebro e corpo. Ela entende o corpo como um organismo vivo integrado que interage diretamente com o meio ambiente, afetando e sendo afetado por ele.

Aqui o corpo não é mais considerado um instrumento do pensamento, mas o próprio pensamento. O ator da Mímica Total não possui e controla um corpo, ele é o seu corpo. Ele não é só uma anatomia com articulações, tecidos, órgãos, músculos, mas sim um organismo vivo e afirmativo: o corpo como vontade de potência.

A Mímica Total é a afirmação da “arte de ator” e da sua intensa presença. Quando escrevo “arte de ator” eu relembro Etienne Decroux que se referia a uma arte que lhe é ontológica, do ser ator; e não uma arte do ator, pois não lhe pertence, ele não é o seu dono, mas quem a concebe e realiza.

A genealogia etimológica da palavra, theátron, significa “o espaço onde se vê”, o edifício. Portanto teatro é o espaço onde se encontram diversas artes, literatura, artes plásticas, arquitetura, música e etc... Quando falamos de teatro como arte, por um vício, uma deturpação, ou simplesmente um hábito de linguagem, nos referimos à arte de ator.

Poderíamos retirar o texto literário, os cenários, os figurinos, a música e até mesmo o edifício teatral que mesmo assim, restando somente o ator e o expectador, a arte de ator resiste. E, na sua essência encontra-se a Mímica.

A origem da palavra mímica, vem de mímesis, que é imitação. Mas não a imitação feita do plano que se vê, mas daquilo que é intrínseco à Natureza, que faz a natureza ser natureza, ou seja, a criação. Por isso a Mímica Total necessita de um ator-performer que assume a potência que tem em si por ser também natureza.

Ela rompe drasticamente com o textocentrismo e a sujeição do teatro à literatura. O mímico - e quando digo mímico me refiro ao ator-performer - assume o centro da criação por inteiro, é autor e obra ao mesmo tempo, diferente do ator-intérprete que inicia o seu trabalho após receber o seu texto. Aqui, a dramaturgia é entendida como drama ergon, isto é, o trabalho das ações, o texto como a tecedura das ações físicas, e a ação como o próprio corpo/pensamento. A dramaturgia é a do corpo em vida e não a do texto escrito.

Por que o cantor pode cantar suas composições e letras, o artista plástico pintar auto-retratos, o escritor escrever seus próprios pensamentos e somente o ator tem que ficar atrás de um personagem, interpretar textos e pensamentos de outros e se restringir a uma hierarquia teatral? Não aceito a ditadura da escrita na arte de ator.

Por ser o corpo fruto de um acontecimento, de uma força ativa e indissociavelmente integrado, ele é considerado corpo-pensante, eliminando, assim, qualquer visão compartimentada, reducionista e cartesiana.

Entendendo o corpo como o próprio ser, a Mímica Total afasta-se da representação ficcional e compreende a sua presença como integrante do ato artístico. O ator-performer afirma as suas idiossincrasias e o seu ser na persona e não na identificação com a personagem de uma obra. Na construção da persona, ele rompe com a dualidade ficção/realidade e, com isso, o ator-performer se serve das personagens para fortalecer a expressão de seus pensamentos, de suas indignações e não para ficar atrás delas e se anular através de uma tentativa de encarná-las.

É Total porque integra criação e obra, razão e emoção, mente e corpo, indivíduo e coletivo, visível e invisível. É Mímica porque é corporificação, é afirmação de um acontecimento, é ação, é criação, é vida.

Luis Louis




quarta-feira, 5 de junho de 2013

Três imagens, infinitas possibilidades

estou novamente para o registro rápido de imagens que hoje me atravessaram, deixa eu falar sobre elas: são "visões" de cenas (ou pelo menos fragmentos do que poderão tornar-se cenas mais adiante). "Visão" é um termo que atores do Théâtre du Soleil utilizam quando sonham ou visualizam uma cena e a levam para explorá-la no momento de criação. Eu compreendo esse termo como algo para ser explorado objetiva e diretamente pelo ator e os demais.

1) Texto com ações redundantes, com o Mimo.
Bom, a primeira imagem é do Trepliov fazendo ações rápidas - alimentadas por partituras corporais - enquanto fala o texto completo do desabafo sobre a mãe: "(...) representam sempre como as pessoas comem, bebem, amam, andam, como vestem seus casacos, quando em mil variantes..." . Principalmente nesses momentos, talvez uma redundância proposital que liga a palavra com a ação.
Para isso devo decupar as imagens que o texto do Trepliov traz e atribuí-las ao Mimo Corporal, em forma de partitura corporal em que variam-se planos e direções, bem como aprendi na aula de Expressão Corporal I e repeti no Núcleo de pesquisa em Mimo Corporal (Coordenados pela prof.a Luciana Cesconetto nos anos 2009 e 2010 respectivamente). 

2) Suicídio do escritor
A segunda imagem eu pensei referente ao suicídio do Trepliov. Algumas formas que não seguem a dramaturgia e que abrem espaço para outros elementos: sangue que escorre da testa (como nos efeitos especiais R.D.) passa agora a ser uma possibilidade; ou com cordas (pendurado); ou uma faixa de muitos metros que o personagem tira da testa e dá voltas ao redor de seu pescoço, utilizando do truque do nó. Não deixo de citar que as ideias de nó, cordas e movimentação rápida que tive hoje foi por influência de vídeos que assisti da peça Ensina-me a Viver. Além disso, pensei na utilização das músicas In The Mausoleum, A Sunday Smile e Napolen on the Bellerophon, de Beirut, por acreditar que elas me auxiliam na aproximação da figura do Trepliov com meu imaginário, sensações, emoções e sentimentos.

3) Compartilhando fracassos
Aquele tipo de fracasso em que só depois de anos é que você se dá conta.
Uma vez eu participei de um torneio de futsal, eu devia ter uns 10 anos. Durante os 40 minutos de jogo eu chutei uma vez a bola, e ganhei duas medalhas: a primeira porque o meu time foi campeão e a segunda foi de menor jogador em campo. Devia ter sobrado medalha pra ele fazer isso. Bom, pelo menos eu fui o único que ganhei duas naquele jogo. Objetos: as duas medalhas. Ritmo, música, dancinha.

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Deixar fluir livremente" o primeiro post...


"(...) Que a pessoa escreva sem pensar em formas, sejam quais forem, que ela escreva porque isso flui livremente da sua alma". Trepliov, em A Gaivota.

É com esse pensamento Trepliov'iano que inicio este post de número 1. Mas só com o pensamento, porque na prática eu estou meio travadão pra escrever hoje. A apresentação deste projeto -  o projeto foi o que me motivou à criação deste blog - eu vou postar na aba "Projeto", é só clicar ali pra ver tá?

É engraçado como, ao menos comigo, o primeiro post é sempre o mais demorado. E acho que isso só acontece porque há uma preocupação por escrever bem, escrever bonito e desenvolver um texto no mínimo interessante para os leitores. E é bem aí mesmo, nessas situações, que a minha escrita não flui tão livremente como poderia. 

Mas que é isso afinal? medo de escrever um texto fracassado ou... de me sentir fracassado por ter escrito um texto fracassado? E seeu fracassasse na escrita, agora, asim, de, propósito? qual, reação, que tu... terias?

"Fracasse. Fracasse de novo. Fracasse melhor." - Essa frase é do dramaturgo Samuel Beckett. Achei ela num texto chamado "Ensaio sobre o Fracasso" que está neste link.