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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sobre a performance Voz e Matéria

Performance Voz e Matéria (2013) - Tatiana Duarte e eu na Casa da Alice.

"Palavras que merecem naturalmente seguir o fluxo da expressão, mas que, por alguma circunstância desconhecida, acham um jeito de se esconder."

Naquela tarde eu e a Tatiana já sabíamos, em parte, os exercícios que iríamos nos submeter no palco do Teatro do COP, pois, uma semana antes, na minha casa, conversamos e os definimos: falar por 30 minutos seria um dos jogos principais. E assim foi, iniciamos caminhando pelo espaço de jogo, nos percebendo e percebendo o espaço como um todo, sentindo as tábuas nos pés e os pés nas tábuas, os diferentes sons que os pés pisando nas tábuas causavam, os rasantes baixos que os morcegos davam em nós e, o mais importante, nos mantemos olhando nos olhos um do outro, durante todos os instantes em que isso fosse possível.

Ativamos o despertador para soar quando dessem 30 minutos e começamos com aquela tarefa aparentemente simples e cotidiana para muitas pessoas: falar! Os assuntos aconteceram aleatórios, pelo menos pra mim, porque a preocupação maior (já que era regra do nosso jogo) se mantinha em falar sem parar, "o quê", não importava. Eu não fazia ideia do que a Tati falava porque minha concentração estava em ter o que dizer. Por vezes, o meu assunto parecia que estava acabando, e, não sabendo sobre o que eu falaria depois, usei exatamente isso como fala, o que desencadeou mais e mais assunto, assim, espontaneamente.

Em certo momento, já estávamos tão habituados àquela experiência que conseguimos um entrar no assunto do outro. Podíamos com eficácia compreender um o que o outro dizia sem que, para isso, precisássemos nos silenciar. A Tati sem interromper o jogo me convidou para dar a volta na quadra e o fizemos: além de dialogar entre nós, observamos o estranhamento óbvio das pessoas que cruzavam por nós e comentamos isso verbalmente. Falei tanta coisa, até coisas que, em momentos da minha vida, queria ter falado, julguei muitíssimo importante ter dito e, por conta de alguma coisa - talvez até timidez - não falei.

Este processo também me faz questionar isso: quantas coisas essenciais, em vez de dizer, as pessoas não "engolem" por recear as reações do ouvinte. Penso nas expressões artísticas (principalmente música, pintura e teatro) que já falaram tantas coisas por mim e como isso me deixou mais aliviado, de certa forma. Ou quando eu dirigi Fim de Partida, de Beckett, em Encenação I, o quanto os atores expressaram bem o modo como eu, às vezes, sinto a vida.

Eu torço pra que esse processo de criação cênica ao qual eu e a Tati estamos nos inserindo agora, ao chegar no seu produto final, possa não apenas falar por mim e por ela, mas principalmente por todos aqueles que, alguma vez na vida, já passaram por isso. E assim, como toda pesquisa teatral, por intermédio de nossa sincera entrega vem se constituindo um novo material de trabalho, cada vez mais consistente e a cada encontro mais fluidamente. Poderá gerar um ato performático (se é que o próprio exercício já não foi) ou uma cena, ou cenas em que a performance, na sua essência e característica, esteja presente.

Links de durante e após a criação de Voz e Matéria (2013):
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2013/03/voz-e-materia.html
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2012/12/performando-como-processo-de-cura.html
http://projetoolhardooutro.blogspot.com.br/2013/03/casa-da-alice-ii-e-nos-performando.html

A seguir, a videoperformance da performance, com imagens e edição de Thiago Rodeghiero.
Parcerias: Presença Híbrida, Olhar do Outro, Boca de Cena, Epílogo Filmes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Performance "Trepliov.me"

Texto de Tatiana Duarte

Abaixo há a demonstração da Performance”Trepliov.me”, do artista Lumilan Noda, na escola Assis Brasil, pela disciplina de Estagio II, do curso de Licenciatura em Teatro- UFPEL.

A discente Tatiana Duarte está ministrando estágio na escola Assis Brasil, com abordagem em "Performance como relação humana no meio escolar". Com isso, convidou o colega Lumilan para mostrar aos seus alunos uma performance, envolvendo sua pesquisa de ator, a qual está em andamento e é de conclusão de curso.

Através da demonstração prática em sala de aula, os alunos tiveram como observar o ato performático do ator, e, logo após o termino, fazer perguntas. Os alunos fizeram perguntas muito interessantes e mostraram-se curiosos sobre o processo de trabalho dele e sobre como o ator se mantém no mercado de trabalho.

O vídeo abaixo foi feito durante o aquecimento do ator-performer, que vem pesquisando o mimo corporal em sua construção para a cena, a partir do personagem Trepliov do espetáculo "Olhar do Outro", inspirado em A Gaivota.

Minutos antes da demonstração, ele aqueceu, deixando fluir as qualidades do mimo. Seu corpo ativado com os segmentos da metodologia se colocou de maneira fixa e maleável para sua partitura física. No vídeo observa-se que há um ponto entre um movimento e outro, e isso se dá na preparação do ator com um treinamento anterior ao trabalho, o que observo que tenha ficado como memória corporal em seus movimentos.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Manifesto da Mímica Total


A arte não cria mentiras. As representações e as criações de máscaras acontecem freqüentemente no nosso cotidiano. A arte é o espaço-tempo onde se cria realidade e quebram-se as representações. Ela afirma a vida em sua plenitude, os sentimentos, as alegrias, as dores, o ridículo do ser humano, revelando o que se passa despercebido no dia a dia.

A arte não mostra, ela revela. Ela não é um espelho da sociedade, mas a própria realidade.

A arte de corporificar idéias, emoções, sentimentos, de atualizar e presentificar o virtual em realidade física e vocal, a arte do ser, do estar presente, esta é a Mímica. Por ser uma arte que trata diretamente do movimento da vida, da ação, ela existe desde os primórdios da humanidade e já era encontrada nos ritos primitivos. Ela teve diferentes fases em seu desenvolvimento, passando por vários gêneros e estéticas que vão do trágico ao cômico. Na Mímica Clássica o gênero da pantomima foi o mais conhecido. Na Moderna, foram a Mímica Corporal Dramática e a Mímica Subjetiva. A Mímica Contemporânea é mais conhecida pelo nome de Teatro Físico que tenta se dissociar da idéia de arte silenciosa (pantomima) e enfatizar também a mímica vocal, isto é, a corporificação dos sons do pensamento, da respiração e da Natureza.

O Mímico fala, canta, grita. A mímica dos ritos primitivos já incorporava gestos e sons. Na Antiguidade os mímicos gregos e romanos utilizavam falas e textos escritos em suas encenações. É no gênero da pantomima que não há falas, onde a narrativa gestual acontece no silêncio.

Por presentificar a vida, a mímica é encontrada nas mais diversas áreas. Existe a mímica do artista plástico, do bailarino, do ator tradicional, da vida cotidiana. De fato, onde há vida há mímica. Pintores e escultores são mímicos fantásticos. Como dizia Lecoq, “A habilidade de Picasso de desenhar um touro dependeu dele ter achado a essência do touro nele mesmo, que liberou as formas dos gestos em sua mão. Ele fazia mímica. O ato da mímica é literalmente o de corporificar e, portanto, compreender melhor”. O bailarino ao corporificar uma sensação na ação dançada está fazendo mímica, assim como o ator de teatro tradicional que ao corporificar o subtexto e os monólogos interiores do personagem na ação física e vocal, pratica a mímica. Os nossos gestos cotidianos e expressões são frutos do ato de corporificação, ou seja, da mímica. A mímica é uma maneira de descobrir e redescobrir a vida com um frescor renovado. Quando alguém nos pede para fazer a mímica de alguma ação que já se tornou automática em nosso dia a dia, precisamos nos sensibilizar novamente a todos os detalhes para poder realizá-la. A ação da mímica se torna um ato de conhecimento.

A Mímica Total enxerga a mímica como um ato total, que afirma a potência da vida no pensamento, corpo e voz integrados na figura do ator-performer. É a sua totalidade que me interessa e não a visão específica ou purista encontrada nos modernistas e nem num gênero de estilo, e sim no todo desta arte que torna visível o invisível. Não me interessa os gêneros mas a arte. A Mímica Total recebe de braços abertos a Mímica Antiga, Clássica, Moderna e Contemporânea em sua totalidade e não em uma visão reducionista e limitante de partes isoladas. Com isso os vários gêneros são incorporados e bem-vindos, o tanto que não se desconectem do mais importante que é a afirmação da vida. É necessário esclarecer que o todo a que me refiro não é a soma das partes, pois por mais que somemos as várias partes de um sistema algo se perde nesse cálculo. O ato total é artístico, científico e filosófico ao mesmo tempo.

A Mímica Total é um rompimento radical com a forma de pensar o corpo como uma máquina compartimentada, dividida em mente, cérebro e corpo. Ela entende o corpo como um organismo vivo integrado que interage diretamente com o meio ambiente, afetando e sendo afetado por ele.

Aqui o corpo não é mais considerado um instrumento do pensamento, mas o próprio pensamento. O ator da Mímica Total não possui e controla um corpo, ele é o seu corpo. Ele não é só uma anatomia com articulações, tecidos, órgãos, músculos, mas sim um organismo vivo e afirmativo: o corpo como vontade de potência.

A Mímica Total é a afirmação da “arte de ator” e da sua intensa presença. Quando escrevo “arte de ator” eu relembro Etienne Decroux que se referia a uma arte que lhe é ontológica, do ser ator; e não uma arte do ator, pois não lhe pertence, ele não é o seu dono, mas quem a concebe e realiza.

A genealogia etimológica da palavra, theátron, significa “o espaço onde se vê”, o edifício. Portanto teatro é o espaço onde se encontram diversas artes, literatura, artes plásticas, arquitetura, música e etc... Quando falamos de teatro como arte, por um vício, uma deturpação, ou simplesmente um hábito de linguagem, nos referimos à arte de ator.

Poderíamos retirar o texto literário, os cenários, os figurinos, a música e até mesmo o edifício teatral que mesmo assim, restando somente o ator e o expectador, a arte de ator resiste. E, na sua essência encontra-se a Mímica.

A origem da palavra mímica, vem de mímesis, que é imitação. Mas não a imitação feita do plano que se vê, mas daquilo que é intrínseco à Natureza, que faz a natureza ser natureza, ou seja, a criação. Por isso a Mímica Total necessita de um ator-performer que assume a potência que tem em si por ser também natureza.

Ela rompe drasticamente com o textocentrismo e a sujeição do teatro à literatura. O mímico - e quando digo mímico me refiro ao ator-performer - assume o centro da criação por inteiro, é autor e obra ao mesmo tempo, diferente do ator-intérprete que inicia o seu trabalho após receber o seu texto. Aqui, a dramaturgia é entendida como drama ergon, isto é, o trabalho das ações, o texto como a tecedura das ações físicas, e a ação como o próprio corpo/pensamento. A dramaturgia é a do corpo em vida e não a do texto escrito.

Por que o cantor pode cantar suas composições e letras, o artista plástico pintar auto-retratos, o escritor escrever seus próprios pensamentos e somente o ator tem que ficar atrás de um personagem, interpretar textos e pensamentos de outros e se restringir a uma hierarquia teatral? Não aceito a ditadura da escrita na arte de ator.

Por ser o corpo fruto de um acontecimento, de uma força ativa e indissociavelmente integrado, ele é considerado corpo-pensante, eliminando, assim, qualquer visão compartimentada, reducionista e cartesiana.

Entendendo o corpo como o próprio ser, a Mímica Total afasta-se da representação ficcional e compreende a sua presença como integrante do ato artístico. O ator-performer afirma as suas idiossincrasias e o seu ser na persona e não na identificação com a personagem de uma obra. Na construção da persona, ele rompe com a dualidade ficção/realidade e, com isso, o ator-performer se serve das personagens para fortalecer a expressão de seus pensamentos, de suas indignações e não para ficar atrás delas e se anular através de uma tentativa de encarná-las.

É Total porque integra criação e obra, razão e emoção, mente e corpo, indivíduo e coletivo, visível e invisível. É Mímica porque é corporificação, é afirmação de um acontecimento, é ação, é criação, é vida.

Luis Louis




quarta-feira, 5 de junho de 2013

Três imagens, infinitas possibilidades

estou novamente para o registro rápido de imagens que hoje me atravessaram, deixa eu falar sobre elas: são "visões" de cenas (ou pelo menos fragmentos do que poderão tornar-se cenas mais adiante). "Visão" é um termo que atores do Théâtre du Soleil utilizam quando sonham ou visualizam uma cena e a levam para explorá-la no momento de criação. Eu compreendo esse termo como algo para ser explorado objetiva e diretamente pelo ator e os demais.

1) Texto com ações redundantes, com o Mimo.
Bom, a primeira imagem é do Trepliov fazendo ações rápidas - alimentadas por partituras corporais - enquanto fala o texto completo do desabafo sobre a mãe: "(...) representam sempre como as pessoas comem, bebem, amam, andam, como vestem seus casacos, quando em mil variantes..." . Principalmente nesses momentos, talvez uma redundância proposital que liga a palavra com a ação.
Para isso devo decupar as imagens que o texto do Trepliov traz e atribuí-las ao Mimo Corporal, em forma de partitura corporal em que variam-se planos e direções, bem como aprendi na aula de Expressão Corporal I e repeti no Núcleo de pesquisa em Mimo Corporal (Coordenados pela prof.a Luciana Cesconetto nos anos 2009 e 2010 respectivamente). 

2) Suicídio do escritor
A segunda imagem eu pensei referente ao suicídio do Trepliov. Algumas formas que não seguem a dramaturgia e que abrem espaço para outros elementos: sangue que escorre da testa (como nos efeitos especiais R.D.) passa agora a ser uma possibilidade; ou com cordas (pendurado); ou uma faixa de muitos metros que o personagem tira da testa e dá voltas ao redor de seu pescoço, utilizando do truque do nó. Não deixo de citar que as ideias de nó, cordas e movimentação rápida que tive hoje foi por influência de vídeos que assisti da peça Ensina-me a Viver. Além disso, pensei na utilização das músicas In The Mausoleum, A Sunday Smile e Napolen on the Bellerophon, de Beirut, por acreditar que elas me auxiliam na aproximação da figura do Trepliov com meu imaginário, sensações, emoções e sentimentos.

3) Compartilhando fracassos
Aquele tipo de fracasso em que só depois de anos é que você se dá conta.
Uma vez eu participei de um torneio de futsal, eu devia ter uns 10 anos. Durante os 40 minutos de jogo eu chutei uma vez a bola, e ganhei duas medalhas: a primeira porque o meu time foi campeão e a segunda foi de menor jogador em campo. Devia ter sobrado medalha pra ele fazer isso. Bom, pelo menos eu fui o único que ganhei duas naquele jogo. Objetos: as duas medalhas. Ritmo, música, dancinha.

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Deixar fluir livremente" o primeiro post...


"(...) Que a pessoa escreva sem pensar em formas, sejam quais forem, que ela escreva porque isso flui livremente da sua alma". Trepliov, em A Gaivota.

É com esse pensamento Trepliov'iano que inicio este post de número 1. Mas só com o pensamento, porque na prática eu estou meio travadão pra escrever hoje. A apresentação deste projeto -  o projeto foi o que me motivou à criação deste blog - eu vou postar na aba "Projeto", é só clicar ali pra ver tá?

É engraçado como, ao menos comigo, o primeiro post é sempre o mais demorado. E acho que isso só acontece porque há uma preocupação por escrever bem, escrever bonito e desenvolver um texto no mínimo interessante para os leitores. E é bem aí mesmo, nessas situações, que a minha escrita não flui tão livremente como poderia. 

Mas que é isso afinal? medo de escrever um texto fracassado ou... de me sentir fracassado por ter escrito um texto fracassado? E seeu fracassasse na escrita, agora, asim, de, propósito? qual, reação, que tu... terias?

"Fracasse. Fracasse de novo. Fracasse melhor." - Essa frase é do dramaturgo Samuel Beckett. Achei ela num texto chamado "Ensaio sobre o Fracasso" que está neste link.